sábado, 29 de novembro de 2014

Minha avó (paterna)


Tá sumida! O almoço já tá prontinho, lava a mão e vem comer. Tem arroz, feijão fresquinho, aqui tem um filé... Ah, não, você não come mais frango. Ovo você come? Quer que eu faça um omelete? Tem certeza? Então tá, pode se servir. Tá satisfeita? Tô cansada. Deixa vovó tirar a mesa. Sua prima é muito bagunceira, Deus-me-livre-guarde. Quer comer alguma coisa? Tô te achando magra. Você tá comendo direito? Tem que comer. Ainda mais que você não come carne. Tá espirrando muito, tá gripadinha? Deve ser gripe. Eu acho que eu tenho remédio aqui, você quer? Qualquer coisa, eu coloco um Vic na panela e você deita lá na cama. Faz bem. Seu avô tem sinusite, eu sempre faço isso. Sempre fiz isso com você também e dá certo. Tem doce, você quer? Para de bobeira, filho! Quatro horas já, tá na hora da cervejinha. Daqui a pouco tá na hora da novela. Perua, você não vai lanchar não? Je suis cansada. Meu pezinho tá inchado. Trabalhei muito hoje. Hoje eu não parei. Vamos sossegar vocês duas? Filho, cadê minha cerveja? Ui, tá na hora da novela. Filho, depois traz uma cervejinha aqui na sala! Deixa eu fazer um pixiti. Filho, a minha cerveja! Vocês já deixaram tudo arrumadinho? Vão lanchar? A novela voltou, espera aí. Pede pro seu avô trazer uma cerveja. Sua bunda suja! Ai, vovó tá cansada, sabia? Vocês querem comer alguma coisa antes de ir?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Sobre a arte de pedir

Terminei o livro da Amanda Palmer. Tentei ser o mais objetiva possível na minha resenha, que deve ser postada no Leitores Depressivos em breve, e decidi deixar meu lado sentimental e minhas ideias pós-leitura fluírem por aqui. Porque se tem alguma coisa que eu quero fazer depois de ler esse livro, é compartilhar com o mundo.



Em primeiro lugar, acho que todo mundo deveria lê-lo. Mesmo não sendo fã da Amanda. Porque ela apresenta uma coisa tão bonita, uma ideia de pedir sem medo, de ser mais humano, que acho que todos deveriam aprender.

Dito isso, posso seguir com os meus devaneios.

Preciso dizer que não sabia que ela falava do Neil no livro. Lógico que eu supunha que ela diria uma ou duas palavras sobre o cara da vida dela, mas ugh. Não do jeito que ela falou. Eu simplesmente não aguentei. Eu já estava emocionalmente abalada com o livro, já tinha chorado com uma ou duas passagens em que ela falava sobre pedir e como pedir é um ato de confiança mútua, mas o que realmente me quebrou foi a seguinte passagem:

 "Really. And I've decided something.
What's that?
I've decided that I'm not going anywhere.
Sorry. What?
I'm not going anywhere, he repeated.
I don't know what you mean, Neil.
I mean, he said, speaking more slowly, that I'm not. Going. Anywhere. Even if it takes years. I think I'll stay right here.
Like... here at the corner table? I joked nervously. You mean you're never going to leave Cafe Gitane ever? That sounds very Neil Gaiman-y.
No, he said, plainly. I'll leave this café. But I won't leave you. That's what I mean. I'm not going anywhere." 

Nada que eu possa dizer vai fazer jus ao que eu senti ao ler essa parte. Sempre tive uma pontinha de inveja do relacionamento do Neil com a Amanda (do mesmo jeito que invejo Tim e Helena e Neil e David), mas nunca que eu imaginaria que o começo da história deles tinha sido tão bonito. Suspirei. 

O livro em si é lindo, um manifesto para as pessoas serem, como eu já disse, mais humanas, menos preconceituosas, e aprenderem a pedir e a aceitar ajuda. Deixar o orgulho de lado.

Como o título já diz, o livro The Art Of Asking fala incessantemente da arte de pedir, mesclando com aspectos da vida pessoal da Amanda. O livro me fez pensar.

Assim como Amanda, eu sempre tive facilidade para pedir as coisas (até mesmo absorventes), e sempre consegui me virar quando recebi um (ou mais de um) "não". Por mais que doesse, por mais complicado que fosse, eu sabia que me expor daquele jeito, para pedir, significava que eu poderia muito bem receber um não, e já me preparava para isso.

Não me considero uma pessoa pessimista, mas aprendi a lidar com os nãos que a vida traz. Mas, apesar de saber como pedir, eu nunca fui lá muito boa em dizer não.

Sempre me lembro daquela cena de "Vestida Para Casar" em que o Kevin está bebendo com a Jane e ele tenta ensiná-la a dizer não. Eu sempre fui assim. Sabia dizer não para coisas que eu considerava absurdas, mas para as mais simples (vide a hora que ele pede para beber o drinque dela) eu simplesmente bloqueava. Era como se eu tivesse uma barreira emocional que não me deixava dizer "ei, amigo, isso está me incomodando, então vou te dizer que não".

Não adiantava seguir conselho dos amigos. Não adiantava ouvir todo mundo me dizer para falar não, eu era muito covarde, eu pensava muito "ah, mas essa pessoa me pediu, me perguntou, eu não queria chatear ela", ao mesmo tempo em que recebia "nãos" da vida.

Então, aos poucos, com muita demora e muitos tapas na cara que a vida me deu, eu descobri que a arte de pedir demanda algumas negativas. Se eu simplesmente dissesse sim a tudo, deixasse que todos fizessem o que quisessem comigo, eu passaria por situações que me deixariam mal, que me afetariam de uma forma negativa. E não era isso que eu queria.

Estabeleci duas formas de dizer não. A primeira, bem simples, depende de quem me perguntou: eu gosto daquela pessoa o suficiente para dizer sim? Ela já me disse sim alguma vez? A segunda é aquela em que eu tenho que pensar. Pensar se vale a minha energia dizer sim, se vai me fazer feliz dizer sim. 

Nós estamos acostumados a ver o não como uma palavra muito feia, muito má, muito ingrata, mas nós precisamos de algumas negações na vida para poder aprender a seguir em frente. Precisamos nos valorizar, mesmo que isso signifique dizer não algumas vezes.

E olha, se eu recebi "nãos" repetidas vezes e ainda estou aqui, aquela pessoa para quem eu disse não também consegue se recuperar. 
 

Moral da história: leiam o livro da Amanda, peçam, aceitem o não como um presente e o sim como uma dádiva.

domingo, 16 de novembro de 2014

Derive


Derive
e venha se encontrar
no meu olhar

Desregre
e esqueça a hora marcada
para deixar

Disponha
e materialize a sinestesia
que é te beijar

sábado, 1 de novembro de 2014

tudo bem, meu bem


tudo bem, meu bem
mesmo que o sol nasça
uma hora antes amanhã
que o relógio soe
quando tudo o mais calar
que os seus sentimentos brinquem
de esconde-esconde
com os meus
mesmo que o galo cante
e você não queira dormir
que o voar das borboletas
cause efeito em nós
que tudo seja um pouco demais
mesmo que eu não seja
a certa para você
e que minhas palavras doces
não bastem;
isso também passa
e fica tudo bem,
meu bem.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

da segunda

a boca, sem voz
e os pés doendo
a lembrança do verde
do carinho, do amor
de sentir calor


a mente, sem dor
um sorriso no rosto
hoje estou
um pouco mais rouca
e mais louca

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Uma (pseudo) carta de amor para Holden Caulfield [parte 1]

Quando conheci Holden Caulfield, eu era mais nova do que ele. Meu livro favorito era Lolita, e eu tinha treze anos. Eu tiinha acabado de descobrir que meu celular conseguia ler arquivos de texto e lido meu primeiro livro em inglês. Queria ler outros. Tentei “O Morro dos Ventos Uivantes”, mas exigia um nível de conhecimento da língua que eu ainda não tinha. Como “O Apanhador No Campo de Centeio” é um clássico, decidi lê-lo. Assim como eu faria com “O Grande Gatsby” anos depois, não li sinopse alguma antes de começar a leitura, então não fazia ideia do que começaria a ler.


Em letras miudinhas, porque meu celular tinha uma tela 320 x 240, iniciei uma leitura que mudaria minha vida para sempre.


Não me lembro exatamente quanto tempo levou para ler aquele livro, mas alguns dias se passaram. Eu tenho a tendência de me isolar de tudo e todos quando começo um livro excepcionalmente bom, e com O Apanhador não foi diferente. Uma das minhas memórias mais vívidas dessa leitura é a de estar deitada no chão da sala da casa da minha avó, com o celular grudado no rosto e os olhos já começando a arder, minha vó perguntando se eu ia comer alguma coisa. Olhei para o lado e tinha anoitecido. Passara o dia todo lendo aquele livro e nem tinha visto as horas fugindo.


Eu era praticamente um estereótipo de nerd ambulante: tinha poucos amigos (alguns colegas, talvez), era considerada estranha, usava óculos… O pacote completo. Vi em Holden um amigo, apesar das décadas de separação. Me perdi nas palavras dele, aprendi novas gírias, conheci sua Nova Iorque, me apaixonei por suas ideias.


Em 2010, aos quatorze anos, eu entrei para o ensino médio. Mentalmente, eu vinha me convencendo de que não precisava de amigos, e nem os queria. Lolita não era mais meu livro favorito.


Minha escola tinha (e ainda tem) um mural com notícias pertinentes aos alunos, para serem lidas porque podem ser matéria de vestibular. No meu primeiro dia, a primeira notícia que eu li foi a de J.D. Salinger morrera.


Na época, eu não tinha esse caso de amor por ele que tenho hoje, mas a notícia me deixou um pouco chateada. Eu decidi que releria “O Apanhador No Campo de Centeio” por causa disso. Fazia dois anos que eu não o lia, e achei que talvez pudesse interpretar melhor o que estava escrito no livro, agora que tinha um vocabulário mais extenso de inglês. Já conseguira até ler “O Morro Dos Ventos Uivantes”.


Meu plano de não fazer amigos não deu certo, em parte por culpa de um professor de português maravilhoso, e em parte porque eu sou péssima em cumprir promessas que faço a mim mesma, mas o que importa é que eu e Holden ficamos ainda mais amigos naquele ano, e eu me apaixonei um pouco por ele.


Durante todo esse tempo, eu procurava o livro físico para comprar, mas não encontrava. Rodei todas as livrarias da cidade, mas nenhuma tinha a capa que eu queria, a original. Quando fiz quinze, fui ao cinema com os amigos e achei. Com as mãos trêmulas e chorando, liguei para a minha mãe para pedir permissão para comprar. Meus amigos precisaram inteirar minha passagem para casa naquele dia.


Aos dezesseis, “O Apanhador No Campo de Centeio” não era mais o único livro de Salinger que integrava minha coleção (que, por sinal, estava em constante crescimento). Nesse mesmo ano, quando fiz dezessete, conheci os Glass e completei minha coleção do Salinger. Ver todos os livros lado a lado na minha estante fez com que eu me sentisse muito orgulhosa. De todos eles, meu favorito ainda era o primeiro que eu lera.


Salinger se tornou meu autor favorito quando eu li “A Perfect Day For Bananafish”, e foi então que meu caso de amor por ele se tornou o que é, mas nem mesmo See-more Glass era capaz de desbancar Holden Caulfield do lugar privilegiado que ele ocupava no meu coração.


Só então foi que resolvi conhecer esse querido melhor. Li sobre ele, vi vídeos a respeito de sua simbologia, procurei entendê-lo. E ele me entendeu de uma forma que pouquíssimos personagens conseguiram, mesmo sem querer. Era tudo o que eu precisava de um relacionamento.


Estou relendo “O Apanhador No Campo de Centeio” pela sei-lá-qual vez. Agora, sou mais velha do que o Holden, mas não acho que saiba muito mais da vida do que ele. Memorizei, ao longo desses seis anos, as manias e características dele, já sei prever o que ele vai falar, mas nada diminui o amor que eu guardei para o Holden. A cada página virada, aprendo mais alguma coisa que fugiu de mim nas primeiras lidas. Relê-lo é redescobri-lo.


De todos os moços da minha vida, Holden Caulfield, você foi o que ficou mais tempo. E olha, não quero me despedir nem tão cedo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Cruzadas

Estou convencida de que não vou mais te ver
Porque a vida insiste em dar e tomar de volta
Hoje você arruinou pelo menos dois lugares
Pelos quais sequer passou

Eu tinha muito para perguntar
Se já se adaptou, se sente calor
Fiquei atônita e sorri
“Você
gostou
daqui?”

Talvez sejam dimensões diferentes
Ou eu que espere demais
Talvez você esteja muito à frente
Ou eu que esteja te deixando para trás

Estou convencida de que não vou mais te ver
E memorizei seu sorriso e sua voz
Para o caso de você não reaparecer

(Pensando bem, a cidade não é lá tão grande assim
Quem sabe você não cruza a rua

Para depois cruzar em mim?)